Crédito é mais restrito para mulheres

Por Carmen Lígia Torres | Para o Valor, de São Paulo

Quantidade nem sempre significa qualidade. A máxima é válida quando se trata de observar o empreendedorismo feminino no Brasil. A pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM) 2010 não deixa dúvidas em relação à participação quantitativa das mulheres nos pequenos negócios. Entre os 60 países pesquisados, a presença das brasileiras só perdeu para as africanas de Gana. Isso significa a existência de 10,3 milhões de mulheres empreendedoras no Brasil, ou 49,3% entre 21,1 milhões de pessoas representadas no estudo, ante 10,6 milhões, ou 50,7%, de homens.

Esses dados estatísticos, no entanto, precisam ser interpretados de maneira cuidadosa. “O empreendedorismo feminino, ou a autonomia nos negócios por livre vontade, não pode ser confundido com trabalho informal da mulher por necessidade”, alerta Iriny Lopes, ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM).

Ela cita dados de 2010, do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), que apontam a falta de emprego como motivação para a autonomia no trabalho de 52,2% das mulheres de regiões metropolitanas. “Apenas 12% se tornaram autônomas para alcançar a independência financeira”, diz, ressaltando que é muito comum as mulheres partirem para ocupações em horários mais flexíveis para compatibilizar as tarefas domésticas com ganhos suplementares, necessários ao sustento da família.

“Na maior parte das vezes, as mulheres não têm escolha, e assumem a dupla jornada de trabalho, ganhando menos e trabalhando em condições mais precárias em relação aos homens”, analisa a executiva da SPM.

Para a ministra Iriny, o empreendedorismo que o Brasil precisa é aquele que promove a ascensão social das mulheres e serve, ainda, como estratégia para enfrentar a pobreza.

O acesso ao crédito, uma das maiores fragilidades ao empreendedorismo brasileiro, por exemplo, afeta mais as mulheres do que homens, segundo pesquisa inédita conduzida pela Endeavor para distinguir fatores de sucesso para os pequenos negócios. Os dados indicam que o público feminino tem menor apoio do poder público para acessar recursos financeiros em relação ao que os homens obtêm. “As mulheres começam seus negócios com uma rede de contatos menor, o que diminui as oportunidades de interação com outros empresários e com instituições de fomento e financiamento”, acredita Amisha Miller, gerente de pesquisa da Endeavor.

Outro fator que explica a restrição é a menor visibilidade das inovações das mulheres empreendedoras. Os homens inovam nos produtos, enquanto as mulheres agregam inovações no processo produtivo, como implementação de novas técnicas de marketing, de recursos humanos e de integração de equipe. “As inovações das mulheres são menos visíveis, o que dificulta ainda mais a obtenção de financiamento”, justifica. Para Amisha, as instituições de fomento precisam aprender a lidar com o jeito diferente de fazer negócios das mulheres.

No mapeamento do perfil das mulheres nos negócios, constam características e visões de mundo bastante diferentes em relação aos homens. Em geral, elas têm menos sócios que eles. Tornam-se empreendedoras em função de habilidades, ao contrário dos homens, que planejam a abertura da empresa e buscam sócios com quem possam organizar e desenvolver um negócio. Seu estilo de gerenciamento tende a ser mais participativo, com maior valorização de empregados e clientes. Além disso, por acumular as funções da vida familiar, os negócios progridem mais lentamente.

Maria de Fátima Santana de Oliveira, 57 anos, vencedora do Prêmio Mulher de Negócios de 2010, na categoria ‘Negócios Coletivos’, é um exemplo de empreendedora que nasceu de uma habilidade. Cearense de Tamboril, Maria de Fátima aprendeu a fazer crochê e a negociar suas peças de artesanato ainda menina. Há seis anos, contando com o apoio do Sebrae local e do governo do Estado do Ceará, conseguiu organizar um grupo de produtoras para comercializar os bens, que foram sendo aperfeiçoados na medida em que elas foram adquirindo experiência e conhecimento.

Atualmente, a Associação de Artesãos de Tamboril (Tamboriarte) possui um grupo associado de 25 artesãs, e mais cerca de 100 prestadoras de serviços. “No início, o grupo estudou bastante sobre associativismo, qualidade, produto e mercado”, conta. Além de venderem para a região, aproveitam oportunidades de divulgar e apresentar seus produtos em feiras e exposições em outras cidades e Estados. A Tamboriarte tem sede e loja própria, e gera renda sustentável para as famílias de todas as associadas.

Para a rondoniana Patrícia Paz Silva, de 46 anos, a vencedora do Prêmio na categoria ‘Pequenos Negócios’, o empreendedorismo nasceu da visão de oportunidade de negócio. Dentista por formação, em 2009, teve a inspiração para seu empreendimento quando levou uma multa da Secretaria de Meio Ambiente de sua cidade, Vilhena, por não ter destinado corretamente os resíduos de seu consultório odontológico. “Fui surpreendida com a multa por não saber da legislação e imaginei que, como eu, deveria haver muitas pessoas que precisariam de uma destinação para o lixo hospitalar”, conta.

Em apenas dois anos, a Moura & Paz Incineradores conseguiu grande evolução com a demanda gerada pela obrigatoriedade de adequação às exigências do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) para resíduos químicos e hospitalares. De sete funcionários no início, a empresa tem hoje mais de 30 e atende municípios de todo o Estado de Rondônia. A Moura e Paz coleta, transporta, trata e incinera os resíduos perigosos, como os hospitalares e alguns industriais, como borra e tintas de siderúrgicas, além de resíduos oleosos, como lubrificantes de carros.

O Prêmio Mulher de Negócios, promovido pelo Sebrae e parceiros, já destacou mais de dez empreendedoras, em seus seis anos de existência. Neste ano, as vencedoras participaram de uma missão internacional de intercâmbio de experiências com empreendedorismo feminino na Itália, em meados de setembro.

Além de conhecerem empreendimentos liderados por italianas, tiveram contato com iniciativas de incentivo para negócios femininos. Na Itália, há, por exemplo, linhas de financiamento especiais para esse segmento. Entre 1990 e o ano 2000, o governo subsidiou, a fundo perdido, 75% dos empreendimentos criados por elas. Além disso, o Programa de Fomento ao Empreendedorismo (Formaper) estuda a implementação de um serviço de tutoria, ligado à Câmara do Comércio de Milão, por meio do qual mulheres bem-sucedidas no mundo dos negócios orientarão as que desejam iniciar seus empreendimentos.

Fonte: Valor Econômico