Livro revela o lado desenhista de Anita Malfatti

SÃO PAULO - Anita Malfatti (1889-1964) é considerada a pioneira e uma das maiores artistas do modernismo brasileiro, sobretudo por suas obras em pintura, como “Tropical” (1917) e “Estudante” (1915-16), mas seu trabalho como desenhista permaneceu um pouco à sombra dessa monumental obra de pintora. O Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP) contém 22 cadernos de desenho da artista, com cerca de 1.200 obras, arquivadas na Coleção de Artes Visuais. Os cadernos foram doados à universidade pelos descendentes de Anita em 1999, ano do centenário de nascimento da artista, em São Paulo. A artista plástica Lygia Eluf, professora da Universidade de Campinas, selecionou 92 obras que considerou representativas desses cadernos para o volume “Anita Malfatti” (Editora Unicamp, 200 páginas). O livro, que pertence à coleção Cadernos de Desenho, contém uma apresentação assinada por Ana Paula Cavalcanti Simioni, socióloga, e Ana Paula Felicissimo de Camargo Lima, historiadora da arte, ambas do IEB-USP.

Anita Catarina Malfatti começou a desenhar para treinar o uso de sua mão esquerda. Nascida com uma atrofia na mão direita, ela teve de se tornar canhota para poder exercer sua arte. Segundo a historiadora Marta Rossetti Batista, em texto para uma retrospectiva da obra de Anita, “é com a esquerda que [Anita] aprende a escrever, a desenhar e a pintar. Um treinamento constante e bem-sucedido, que ela gostava de afirmar”. A artista tinha prazer em se gabar dos círculos perfeitos que fazia à mão (esquerda) livre, convidando seus alunos a conferir os traços sobre o quadro negro com régua e compasso.

Os desenhos selecionados para o volume, dentre os quais se incluem muitos estudos e esboços, ajudam a compreender os diferentes caminhos que a artista percorreu à medida que desenvolvia sua própria linguagem. “Se as pinturas tendem a ser geralmente consideradas ‘obras-primas’”, escrevem as organizadoras, “os cadernos de desenho traduzem uma outra possibilidade, a de seguir, pelas linhas traçadas pela artista, o fluxo oscilante de uma vida”.